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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Conversa de Manicure

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Nesse sertão de vaqueiro, 
Chapéu de couro e gibão 
Uma tá de manicure 
Ou pintadeira de mão 
Cum seu trabaio pustiço 
Deu o maió ribuliço 
Nas matuta do sertão. 

Esse salão de beleza 
Incaicô com liberdade 
O botão da safadeza 
Junto com o da vaidade. 

Gente de cabelo duro 
Saiu feito poico ispim 
Mulé do cabelo bom 
Saiu cum o cabelo rim. 

Vi nega de capacete 
Cum os dedos dento dum môi 
Vi pintamento de beiço 
De cabelo e até de oio. 

Guaribação de bochecha 
Pra limpar cara de jaca 
Aparamento de unha 
Tiramento de inhaca 
Baibeadô de suvaco 
Vi tapadô de buraco 
Disfaçadô de ressaca. 

Vaqueiro fazendo unha 
Foi minha grande surpresa! 
Sentou-se no mei das feme 
Deixou de lado a macheza. 

Viúva do mermo dia 
Se alegrou da tristeza 
E pra fugir do enpêrro 
Logo depois do enterro 
Foi pro salão de beleza. 

A fama da manicure 
Desceu de sertão a fora 
Matuta que conhecia 
Só brilhantina glostora 
Pintou-se que nem paiaço 
E pra quem era um bagaço 
Inté que teve uma miora. 

Mais o que mais atraia 
As damas pra maquilagem 
Era a mitida de pau 
No mundo da fofocagem. 

A manicure seu moço 
Paricia uma navaia 
Cortou do alto sertão 
Inté a beira da praia 
Botou defeito nos santo 
Matou Neném de quebranto 
Jogou freguês na gandaia. 

Na base da fofocagem 
Lucrava com garantia 
O salão era pequeno 
Pra festa da freguesia 
Quando o trabai começava 
A freguesia escutava 
E a manicure dizia: 

Gerome de Zé Lotero 
Aquilo é que ser safado 
Além de falso e xexeiro 
É mentiroso e tarado 
E pelo que me dissero 
Sendo fi de Zé Lotero 
Tem tudo pra ser viado!

Guilora de Ataíde 
Tão engraçada que era 
Hoje depois de parida 
Virou uma besta-fera 
Também o cão do marido 
É mago, fei e cumprido 
Que nem a rosa pantera.

O finado Rubiná 
Que Deus tape as suas oiça 
Armuçava nas panelas 
Mode não sujá as loiça 
Ah! sujeitim miserave, 
Fuxiqueiro e imprestave 
Pro ele não ha quem toiça. 

O seu Manel Hostaliço 
Todo metido a ricão 
Passou a vida porpando 
Mode comprar uma mansão 
Hoje vei, chei de dinheiro 
Tem uma casa cum dez banheiro 
E o peste mija no chão. 

Aquela Li varredeira 
Só veve de fuxicar 
Dá conta da vida aléia 
De tudo quanto é lugar 
Em casa farta cumida 
Tem quatro pia intupida 
Três redes pra custurar!? 

A fia de Zé Botinha 
Oi! Eu não gosto de falá 
Mas pra mim ela é chifreira 
E ninguém pode negá 
Casou-se com Chico Bento 
Mas já saiu cum o sargento 
E quatorze oficiá. 

Minha cumade Honorina 
Já que os freguês foro embora 
Já qui nós tamo sozinha 
Vou lhe contá uma estora.
Sei que vós não advinha. 

Esse magote de feme 
Que saiu quage agora 
São tudo quenga, chifreira, 
Veaca e caipora 
De todas aqui presente 
As única mulé decente 
Só era eu e a senhora. 

(Jessier Quirino)

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