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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

23 ANOS DE SAUDADE DE GONZAGÃO

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Luiz Gonzaga - 50 Anos de Chão
Não foram apenas cinqüenta anos de chão, foram também cinqüenta anos de céu. Com a sanfona de oito baixos e a voz soando a sertão, o cidadão pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento – Lula para os de casa, Luí para outros, Gonzagão para diferençar do filho também famoso, Luiz Gonzaga para o mundo – criou uma obra poético-musical única, inspirada tanto na sua vivência de sertanejo duro e sofrido como nos arrebatamentos românticos de homem sensível que ele decerto foi. Se cantou as terras secas e tristes cá de baixo, terras que seus pés de moço um dia pisaram...

Quando oiei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu:
"Ai, pru que tamanha judiação?"

... cantou também as imensidões iluminadas lá de cima...

Olha pro céu, meu amor,
Vê como ele está lindo
Olha pr’aqueles balão multicor
Como no céu vai sumindo.
E se cantou o orgulho ferido de caboclo que o Sul quis ajudar...

Mas, doutor, uma esmola
A um homem que é são
Ou lhe mata de vergonha
Ou vicia o cidadão

...cantou também lirismos singelos e nostálgicos...

Se a gente lembra pro lembra
O amor que a gente um dia perdeu
Saudade inté que assim é bom
         Um cantador de talento raro cujas cantigas não falavam apenas de animadas festas nordestinas, mais tarde conhecidas como forrós, nem só dos amores perdidos em arraiais juninos, mas também das tristezas e injustiças sociais de sua terra, mais Brasil que sertão.
         Esta não é a primeira vez que nos atrevemos a comparar Luiz Gonzaga a um quixotesco cantador que – com seus baiões, xotes, toadas, xaxados, côcos e xeréns – levou a árida realidade do Nordeste para um Sul que, na época, respirava os perfumados e tecnicoloridos sonhos musicais que Hollywood nos mandava a bordo da Política da Boa Vizinhança. Um cantador, acima de tudo, ousado.
         "Sozinho, como um Quixote de chapéu de couro – escrevemos no dia de sua morte – ousou furar a onda da música norte-americana que invadiu o Brasil, na década de 40, para mostrar ao país como de dançava o baião ou como se fazia um forró. Foi grande o bastante para transformar a lição em tradição. E mais: ensinou ao brasileiro o caminho da redescoberta de toda uma cultura nordestina, em baixa desde que os Turunas da Mauricéia saíram de moda em fins dos anos vinte. Fez tudo isso com grande personalidade e enorme talento".
         Para explicar melhor essa breve eulogia em forma de pensata, lembremos que os Turunas da Mauricéia foram dos muitos grupos nordestinos que, na década de vinte, invadiram o Sul do Brasil com sua música. Bem antes deles, já fazia sucesso na velha Capital da República um caboclo de nome poético e versos pernósticos que a primeira-dama do país Nair de Teffé, levara para cantar e tocar num recital no Catete: Catulo da Paixão Cearense. Um atrevimento tal que Ruy Barbosa, o principal adversário do presidente, marechal Hermes da Fonseca, proferira indignado discurso no Senado. Imaginem! Em vez de obras de Wagner e Chopin, ouviam-se em palácio... o corta-jaca e as modinhas de Catulo!
         A música popular – sobretudo a regional – seria, por muito tempo, alvo de semelhantes preconceitos no principal centro cultural do país. Catulo, para ser aceito, teve de copidescar seus versos, urbanizá-los, afiná-los pela estética preciosística dos modinheiros do começo do século. Transformou-se num sertanejo vestido a rigor. Já os grupos do tipo Turunas da Mauricéia, estes não foram aceitos nunca, a não ser pelas camadas mais populares. Enfeitaram os carnavais cariocas com seus ritmos, fizeram de Pinião a música mais cantada na folia de 1928, influenciaram jovens cariocas como Pixinguinha (que chegou a desfilar num bloco vestido de cangaceiro) e Almirante (fundador e líder do Bando de Tangarás, organizado para cantar modas de ciola, desafios, cocos, cateretês, emboladas), mas na verdade nenhum deles, grupos nordestinos, obteve as bênçãos das elites intelectuais, palacianas ou não.
         Com a eclosão do samba no fim da década – em especial a partir do surgimento dos bambas do Estácio, de gênios do morro como Cartola, de artistas do rádio como Ary Barroso, Lamartine Babo, João de Barro e Noel Rosa – a música nordestina entrou em longo e absoluto recesso. Pior que isso, passou a ser considerada de mau gosto. Em especial para uma crítica acadêmica (a mesma que hoje classifica de brega o popular vigente em universo social diferente do seu), a música nordestina era coisa menor, sem importância. Podia-se aceitar uma dupla caipira ou sertaneja nos moldes de Jararaca & Ratinho ou Alvarenga & Ranchinho. Mas só pelas piadas, pela graça, nunca pela música (pouco se davam conta, por exemplo, de que Ratinho era músico excepcional e que Ranchinho, se se levasse a sério, poderia ter sido ótimo letrista).
         Em 1940, com menos de cinco anos de existência, a PRE-8, Rádio Nacional do Rio de Janeiro, começaria a mudar esse quadro. Meio sem querer, é verdade, como se escrevendo certo por tortas linhas. A guerra já começara na Europa. Tendo em relação a ela uma posição de início ambígua, o presidente Getúlio Vargas confiava cada vez mais no projeto de seu colaborador Lourival Fontes: usar o rádio para, unindo culturalmente o país, uni-lo também politicamente. Em torno do próprio Vargas, claro. Pressionado a entrar na guerra, do lado que não era bem o de sua simpatia, o presidente viu a cultura do seu país – dentro dela a música popular – navegar por dois mares distintos: a Política da Boa Vizinhança, que os Estados Unidos nos mandavam na forma de jazz, filmes, big bands, Bing Crosby, suíngues, Frank Sinatra, your hit parade, tudo fazendo da música americana o modelo a seguir e influenciando maciçamente os compositores e intérpretes brasileiros; e o projeto da PRE-8 que, redescobrindo o Brasil para depois uni-lo culturalmente, tirava de limbos distantes o regionalismo musical do Norte e do Sul e reagia, meio sem querer, à Política da Boa Vizinhança. É neste ponto que entra em cena o nosso Quixote.
         Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu numa fazenda de Exu, Pernambuco, em 13 de dezembro de 1912. Aprendeu a tocar vendo e ouvindo o pai, o sanfoneiro Januário, animar bailes nos sábados da cidade e consertar foles, harmônicos, pés-de-bode, ou de que outra forma se chamava lá o acordeom.Seu Januário e Dona Santana
        
- Ficava por ali, desasnando – lembraria ele. – Na igreja de São João Batista, perto de 16 de junho, juntavam-se os tocadores do lugar. Sua música atraía o pessoal para as festas religiosas. Chegada essa época, eu ia pra lá, puxava assunto com o tocador, pedia pra experimentar o instrumento, a zabumba, a caixa, o pífano, a sanfona. Fui aprendendo.
         Por obra do acaso (e do amor) o jovem Lula logo emigrou para o Sul. Tinha dezoito anos quando se apaixonou por Nazarena, moça endinheirada do lugar. O pai dela, um certo Raimundo Deolindo, deixou claro, e fez questão de espalhar por toda Exu, que não a queria ver de namoro com aqueles "neguinho sem futuro". Ao saber disso, Lula tomou coragem (ou melhor, uma talagada de cana) e foi tirar satisfações com o pai da moça na feira de domingo, bem diante de todo o povo. Raimundo queixou-se à dona Santana, mãe de Lula: "Outro desrespeito desse, minha senhora, pode acabar em sangue", ameaçou. Dona Santana, Mais temerosa que zangada, não respeitou os dezoito anos do filho e deu-lhe uma surra. Humilhado e ofendido, o rapaz vendeu a sanfona, arrumou a trouxa e partiu.Luiz Gonzaga no Exército
          A primeira escala foi Fortaleza, onde Lula entrou para o Exército e tornou-se cabo corneteiro. Viajou muito. Andou por São Paulo, fez biscates, comprou sanfona nova, até que desembarcou no Rio de Janeiro disposto a ganhar a vida com música. Seu primeiro emprego na cidade foi no Mangue, zona de meretrício que, na época, ao lado de casas de quinta categoria, mantinha botequins iluminados, de razoável aparência, com arrasta-pés vespertinos e música ao vivo. Seu repertório, então, era composto de tangos, boleros, valsas, fox trors. Uma noite, depois de ouvi-lo, um estudante pernambucano de passagem disse-lhe:
         - Você toca muito bem, seu moço. Mas por que não ataca umas coisinhas lá da nossa terra pra matar a saudade. Deixa o tango pra lá. Olha, da próxima vez que a gente vier aqui, se você não tocar umas músicas nordestinas, não vai ter dinheiro no seu pires.
         Pensando em tudo aquilo, especialmente no dinheiro no pires, compôs dois chamegos, Pé de Serra e Vira e Mexe. Consciente de que o rádio era o principal veículo para a música naquele 1941, inscreveu-se no programa de calouros de Ary Barroso, solou o Vira e Mexe, ganhou o primeiro prêmio e, não muito depois, foi contratado pela Nacional.
         A famosa emissora realmente escreveu certo por tortas linhas. Tinha em seu cast – misturando a proposta getulista à da Boa Vizinhaça, numa polivalência cultural realmente impressionante – vários tipos de orquestra: sinfônica, de música brasileira, de tangos, de danças da moda, de ritmos caribenhos. E vários tipos de intérpretes: cantores de opereta, de baladas francesas, de fox trot, de bolero, de canções do Oeste americano vertidas para o português, mas também de samba, de choro e de toda sorte de gêneros regionalistas, o Pedro Raimundo das rancheiras dos Pampas, a Stelinha Egg do folclore central, as duplas caipiras de sotaque mineiro ou paulista e, naturalmente, o som nordestino do moço Luiz Gonzaga.
         Os preconceitos estavam longe de ser superados quando Lula e sua sanfona foram ouvidos pela primeira vez no auditório da PRE-8. Compenetrado no papel de representante da nordestinidade, ele tratou de vestir-se a caráter, alpercatas de couro, roupas de boiadeiro, chapéu de cangaço. Afinal, se Pedro Raymundo entrava no palco de bombachas para representar o Sul, se Ruy Rey trajava-se de rumbeiro e se Bob Nelson era caubói estilizado (enfeitado de revólveres, cartucheiras e tudo mais, para se transformar num Roy Rogers tupiniquim), por que não ele, Gonzaga, se vestindo à maneira do sertão? Floriano Faissal, diretor artístico da Nacional, protestou em nome do "bom gosto":
Luiz Gonzaga vestido de Cangaceiro         - Enquanto eu mandar nesta rádio, não permitirei que você apareça diante de nosso público vestido de bandido de Lampião.
         É evidente que Faissal acabaria mudando de idéia, mas não em antes obrigar Gonzaga a cantar, no maior desconforto, de smoking. Contra a vontade, e por motivos diferentes dos de Catulo, converteu-se num sertanejo vestido a rigor.
         Depois, vieram o sucesso, a glória, a força do talento derrubando preconceitos e reabrindo as portas do meio musical para o esquecido Nordeste. Em 1950, o baião já era tão ouvido no rádio quanto o samba, o bolero e os ritmos estrangeiros da moda. Muitos chegavam a pensar que aquela "nova dança"tinha sido inventada por Luiz Gonzaga e seus dois parceiros, Humberto Teixeira e Zédantas (na verdade, o baião, cujo nome deriva de baiano, já era conhecido em fins do século passado, e Januário deve tê-lo tocado em seu fole).
Humberto Teixeira e Zédantas nunca foram muito amigos. Gonzaga era o único elo entre eles, Teixeira, que apareceu primeiro, era advogado. Dantas, mais moço cinco anos, era médico. Os dois se interessavam por política, o primeiro elegendo-se deputado pelo partido de Adhemar de Barros e o outro orgulhando-se de ser "apenas um anônimo sertanista". Teixeira tinha uma ambição: universalizar a música nordestina, o que tantou fazer através da lei que levou o seu nome. Dantas preferia cantar as coisas do agreste. Foi o próprio Luiz Gonzaga quem melhor estabeleceu as diferenças entre os dois:
         - Humberto era mais mesclado com a cidade, com o asfalto. E Zédantas veio do sertão bravo. Eu costumava dizer que podia sentir o cheiro de bode na pessoa dele.
         Com Humberto Teixeira, Gonzaga fez No Meu Pé de Serra, Baião (Eu vou mostrar pra você como se dança o baião..."), Paraíba, Respeita Januário, Juazeiro, Xandusinha, Estreada de Canindé, Qui Nem Jiló, Assum Preto e a obra-prima dos sois, Asa Branca. Com Zédantas, fez Vem Morena, Cintura Fina, Forró de Mané Vito, 13 de Dezembro, Sabiá, Riacho do Navio, Imbalança, ABC do Sertão, São João na Roça, Noites Brasileiras, A Dança da Moda, O Xote das Meninas, A Volta da Asa Branca e Vozes da Seca.
         Durante todo esse tempo, os olhos atentos de Luiz Gonzaga viram muita coisa acontecer: sua música saindo e voltando ciclicamente à moda, Asa Branca esquecida e depois convertida em hino, jovens talentos surgindo (a geração de Caetano, Gil, Alceu, Moraes, baianos e pernambucanos novos mirando-se nele para reabilitar a nordestinidade e reinventá-la mais adiante). Incluía-se na mesma geração seu próprio filho, Luiz Gonzaga Jr., Algo renegado em menino (nasceu no morro de São Carlos, foi criado por amigos da mãe e só aos 16 anos se aproximou do velho), mas que logo cresceria para se escalar no primeiro time da música popular e acabar se unindo ao pai entre as estrelas de uma mesma constelação, Gonzaguinha um, Gonzagão outro.
         Nesse meio século, o Gonzaga pai jamais perdeu o prestígio. Teve praticamente uma única gravadora, a RCA Victor, hoje BMG, e nela perpetuou mais de mil canções, suas ou de outros. Pode ter saído do palco por momentos, mas perder o prestígio, nunca.
         - Sim, aí pelos anos sessenta, achei melhor me afastar – contaria ele. – A garotada estava crescendo muito. Era a época das guitarras, dos cabeludos. O rádio ia virando coisa do passado. E a imagem que a televisão queria mostrar ao seu público era de coisa mais sofisticada, nunca de um cangaceiro de chapéu esquisito, empunhando uma sanfona.
         Foi mas voltou logo. Para compor, tocar e cantar o quanto a saúde lhe permitiu. Andou alternando a música com atividades outras, como a de apaziguador de briga entre famílias rivais do sertão pernambucano (selou-lhes a paz tocando para elas em praça pública), visitas nostálgicas ou diplomáticas a Exu e um namoro com a política que não deu em casamento. Chegou a pensar em seguir as pegadas do parceiro Humberto, candidatando-se a deputado federal pelo PDS.
         - Mas vi que entrar na política com aquela idade (70 anos) era a mesma coisa que velho se casando com moça nova.
         Ficou com a sanfona de oito baixos e a voz soando a sertão. Sua música – que acabou triunfando sobre os altos e baixos das novidades do momento – continuou sendo o que sempre foi: autêntica, rica, poderosa, de espírito agreste e cheiro de terra. Uma música difícil de descrever, como acontece com as melhores artes populares, e de cuja grandeza o próprio Luiz Gonzaga parecia não ter muita consciência.
         Disse ele numa entrevista de 1971, quando mais uma vez o Brasil o redescobria:
         - É melhor vocês falarem de mim, porque eu mesmo não sei o que sou, não sei por que falam de mim. Eu mesmo não entendo nada, eu vou levando. Pra mim tanto faz. Que é bacana, é... Mas deixa o povo falar.
         Sanfona e voz silenciaram para sempre em 2 de agosto de 1989, em Recife, onde o coração do velho cantador, minado por seis meses de doença (a uma osteoporose seguiram-se vários tipos de infecção e uma pneumonia fatal), parou por volta das cinco e meia da manhã. Seu corpo, embalsamado, foi velado na capital, Juazeiro do Norte e na Exu natal, onde o sepultaram no fim da tarde.
         Gonzaga morreu quatro anos depois de tocar em Paris e dois depois de ganhar o Prêmio Shell de Música Popular, o fole de "mau gosto" fazendo-se ouvir entre as paredes nobres do Teatro Municipal. Morreu seis anos depois, enfim, daquele breve namoro com a política: "Serei um deputado feliz – disse ele na ocasião – se ajudar o Brasil a ter consciência de seu sertão". Como se sua música não o tivesse feito.
Fonte:www.reidobaiao.com.br

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